"Mas para ser justa, admito que as mulheres também devem ter adorado ver atriz perder o rumo. Continuar linda com quarenta anos, vivendo uma violenta paixão, rica e famosa – é demais para a inveja da gente. Se diante da queda de uma mulher irresistível os homens gozam por sua própria libertação (o desejo escraviza, certo?), as mulheres gozam a revanche de todas as invejas recalcadas. Vergonha para uns e outras, claro. A inveja e o ressentimento, já dizia Nietzsche – este filósofo detestável – são atributos dos fracos, dos escravos, que não ousam lutar por um lugar entre os deuses. Eu já não gosto muito desse papo de deuses, de seres superiores e inferiores, mas concordo com o pára-choques de caminhão: a inveja é uma merda. E quanto aos homens, por favor: tentem pelo menos estar à altura das mulheres que vocês desejam, em vez de ficar esperando a oportunidade triste de festejar a sua decadência."
Maria Rita Kehl
sexta-feira, 11 de junho de 2010
domingo, 6 de junho de 2010
"A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar"
"Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar”
"Mas nós somos como as lagartixas que perdem o rabo: logo um rabo novo cresce no lugar do velho. Assim é com a gente: logo a vida volta à normalidade e estamos prontos a amar de novo.A saudade doída passa a ser só uma dorzinha gostosa."
RUBEM ALVES
terça-feira, 1 de junho de 2010
As relações afetivas nos jogos da internet.
Jogos e sites possibilitam para o usuário criar infinitas formas diferentes de ser e de se expressar, incluindo também escolher as mais variadas características físicas e biotipos que lhe agradem.Essa oferta pode parecer muito sedutora em um primeiro momento. Oferece a possibilidade de um universo em que cada pessoa pode imaginar e criar em outra realidade, sendo esta virtual, tudo aquilo que lhe for desejável.
O jogador, dessa maneira, pode viver um personagem que não se depara com as limitações e obstáculos da vida real e do seu cotidiano. É como se pudesse existir uma vida em que houvesse apenas prazer, o tempo todo.
Neste mundo de "faz-de-conta", é possível vivenciar inúmeros relacionamentos, marcando quantos encontros românticos seja possível desejar, assim como criar cenários onde os personagens são capazes de satisfazerem-se por completo.
Podemos pensar então, o que se espera alcançar ao se relacionar de maneira afetiva, sexual e/ou erótica no universo virtual. Será apenas diversão, entretenimento ou curiosidade? Ou será que pode haver também uma tentativa de se relacionar com outra pessoa apenas utilizando a imaginação.
Esta outra pessoa que, por estar nesse terreno virtual pode ser tomado como um ideal, vindo a ocupar ou a satisfazer alguns anseios que só um personagem pode proporcionar.
Quando dois personagens se relacionam em um mundo virtual consegue-se controlar a distância entre o personagem e o diretor da história inventada. Na maioria das vezes quem dirige prefere preservar sua identidade, fazendo-se anônimo neste momento.
Em uma relação que se dá no campo real não é possível de se encobrir por muito tempo sua individualidade e suas peculiaridades, em função da proximidade e intimidade com o par. Assim, quem dirige e atua na própria história terá que se implicar e se responsabilizar pelos atos cometidos e palavras ditas.
Por outro lado, quem nunca ouviu falar de casais que se conhecem, namoram e até casam pela internet? Temos conhecimentos que muitas dessas relações tornam-se presentes na vida real, passando a relações estáveis e duradouras.
O recurso da internet facilita a comunicação entre os parceiros, como também permite que o vínculo afetivo se dê com maior facilidade para algumas pessoas, ainda mais no caso da timidez aparecer.
O limite entre o uso desses jogos e sites de relacionamentos que despertam fantasias, e alguém que pode estar desenvolvendo um comportamento patológico (gerando dependência dessas relações virtuais), está na habilidade do internauta em não restringir sua vida social e afetiva somente a encontros e conversas que aconteçam apenas em frente à tela de um computador. (Ana Paula Dilger)
texto publicado em: http://www.portalmex.com.br/
sábado, 29 de maio de 2010
Quais são os efeitos dessa exclusão (forclusão) do sujeito nas relações
que estabelecemos com os outros? – pergunta-se Hassoun (1997). O autor
afirma que, na paixão, o sujeito é capturado pelo outro a ponto de se deixar
despossuir de sua subjetividade pela imagem apaixonante na qual ele é a presa.
Na melancolia, o sujeito é tragado pelo terror e espanto diante de sua própria
indignidade, mergulhando num abismo de perplexidade, apatia e crueldade que
o despossui de seu desejo, de sua fala e de sua voz, dando voltas infinitamente
em seu enigmático desastre interior.
No caso do ódio, o sujeito que é sua presa acaba devorado pelo horror
que o outro lhe suscita e passa obstinadamente a tentar destruir essa suposta
causa de sua indignidade. Obsedado por essa ideia, o sujeito persegue por
todos os lados o obscuro e estranho objeto de seu ódio, para melhor destruir o
outro. Primeiro, o outro estrangeiro, portador do significante da diferença, e,
portanto, invasor em seu território narcísico. Progressivamente, o círculo de ódio
vai se estreitando aos mais próximos, atingindo familiares, bem como a si mesmo
(Hassoun, 1997, p. 13-14). Tal como no conto de Poe mencionado acima.
No ódio ao estranho-estrangeiro, seja pela exacerbação do imaginário
especular nas relações sociais, seja pelo surto alucinatório de retorno ao real da
alteridade simbólica forcluída, as consequências são mortíferas.
que estabelecemos com os outros? – pergunta-se Hassoun (1997). O autor
afirma que, na paixão, o sujeito é capturado pelo outro a ponto de se deixar
despossuir de sua subjetividade pela imagem apaixonante na qual ele é a presa.
Na melancolia, o sujeito é tragado pelo terror e espanto diante de sua própria
indignidade, mergulhando num abismo de perplexidade, apatia e crueldade que
o despossui de seu desejo, de sua fala e de sua voz, dando voltas infinitamente
em seu enigmático desastre interior.
No caso do ódio, o sujeito que é sua presa acaba devorado pelo horror
que o outro lhe suscita e passa obstinadamente a tentar destruir essa suposta
causa de sua indignidade. Obsedado por essa ideia, o sujeito persegue por
todos os lados o obscuro e estranho objeto de seu ódio, para melhor destruir o
outro. Primeiro, o outro estrangeiro, portador do significante da diferença, e,
portanto, invasor em seu território narcísico. Progressivamente, o círculo de ódio
vai se estreitando aos mais próximos, atingindo familiares, bem como a si mesmo
(Hassoun, 1997, p. 13-14). Tal como no conto de Poe mencionado acima.
No ódio ao estranho-estrangeiro, seja pela exacerbação do imaginário
especular nas relações sociais, seja pelo surto alucinatório de retorno ao real da
alteridade simbólica forcluída, as consequências são mortíferas.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Pais sem rumo, crianças sofridas
"[...] É evidente que existem famílias tranqüilas, pais e mães equilibrados e protetores. Mas a família moderna, fechada sobre si mesma, toda voltada para a produção de bem estar, fundada nas formas mais egoístas de amor, é um canteiro propício, no mínimo, à violência psicológica. Os filhos frustram as expectativas dos pais, o amor vira moeda de barganha e chantagem mútua, a esperança de entendimento de parte a parte é freqüentemente obstruída pela culpa que cada um sente por não amar o outro tanto quanto devia.
Apesar disso, não existe nenhuma outra instituição que a substitua. Desejamos formar família, viver em família, criar condições de convívio protetoras, agradáveis. Mas lembrar que se a família, em seus moldes tradicionais, fosse um mar de rosas, Freud não teria criado a psicanálise.
Se a criança é desamparada frente aos que cuidam dela, os adultos de hoje também se sentem desamparados no exercício de suas funções. A vida contemporânea está tão privatizada, tão indiferente a valores ligados ao bem comum, a sociedade tornou-se tão narcisista e infantilizada, que o bem estar das crianças tornou-se praticamente o único ideal dos adultos. Ser “bom pai” tornou-se a razão de viver de adultos que perderam as referências para saber tanto o que é ser “bom” quanto o que é ser “pai” (ou “mãe”). Se os filhos se tornam o único ideal de seus pais, estes não têm mais nada a lhes transmitir a não ser “seja feliz” – isto, numa sociedade em que felicidade se mede pela capacidade de consumo e diversão.
O desamparo do adulto diante das exigências dos filhos, a quem eles próprios prometeram dar “tudo de bom e de melhor”, tem resultados patéticos ou, no pior dos casos, trágicos. Algumas crianças, híper estimuladas e excitadas, ficam cada vez mais insatisfeitas e agressivas enquanto os pais, incapazes de estabelecer limites para a farra que eles mesmos prometeram, vivem exasperados, culpados, impotentes – e às vezes, tão fora de controle quanto os pequenos. Um adulto que se vê incapaz de educar uma criança é capaz de confundir autoridade com violência, poder simbólico com coerção física.
Vez por outra, um desses pais incapazes de colocar limites em seus filhos também corre o risco de perder seus próprios limites. "
Maria Rita Kehl
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Análise
Você está em análise?
Por Jorge Forbes
Você está em análise? Etâ perguntinha difícil de responder; vejamos. Primeiro, não basta você dizer que vai a um psicanalista bem titulado, tantas vezes por semana. O carteiro do analista também vai lá com frequência e nem por isso está em análise. Ficou conhecida a história de um paciente que após um bom tempo diz a "seu analista" que está chegando ao fim de seu trabalho. Este lhe responde: - "Engano seu, penso que o senhor está prestes a começar". Entrar em análise é mudar de posição subjetiva: a pessoa para de referir suas queixas às cenas atuais de seu cotidiano e passa a se entender em uma "Outra Cena", como dizia Freud. Isso é difícil de conseguir, pois a realidade sempre alivia o comprometimento de cada um em seu mal-estar, razão pela qual muitas pessoas adoram viver um inferno de vida. Se quisermos traduzir em conceito, entrar em análise é sair de uma moral dos costumes e se instalar na ética do desejo.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Sobre os contos de fada
A função das narrativas maravilhosas da tradição oral poderia ser apenas a de ajudar os habitantes de aldeias camponesas a atravessar as longas noites de inverno. Sua matéria? Os perigos do mundo, a crueldade, a morte, a fome, a violência dos homens e da natureza. Os contos populares pré-modernos talvez fizessem pouco mais do que nomear os medos presentes no coração de todos, adultos e crianças, que se reuniam em volta do fogo enquanto os lobos uivavam lá fora, o frio recrudescia e a fome era um espectro capaz de ceifar a vida dos mais frágeis, mês a mês.
As modernas versões dos contos de fada, que encantaram tanto nossos antepassados quanto as crianças de hoje, datam do século XIX. São tributárias da criação da família nuclear e da invenção da infância tal como a conhecemos hoje. Isto implicou em:
1: a progressiva exclusão dos pequenos do mundo do trabalho, na medida em que a Revolução Industrial criou espaços de produção separados do espaço familiar (o segundo era característico das organizações do trabalho artesanal e campesino)
2: os ideais iluministas e os novos códigos civis trazidos pelas revoluções burguesas passaram a reconhecer as crianças como sujeitos, com direito tanto a proteções legais específicas quanto ao reconhecimento de uma subjetividade diferenciada da dos adultos.
Assim, a infantilização das narrativas tradicionais, transformadas nos atuais “contos de fadas”, é concomitante à criação de um mundo próprio da criança e ao reconhecimento de uma “psicologia infantil”, da qual mais tarde a psicanálise viria a se destacar radicalmente.
Os autores deste Fadas no divã, o casal Diana Lichstenstein Corso e Mario Corso, sabem de tudo isso. Na linha inaugurada pelo psicanalista austríaco Bruno Bettelheim , afirmam que a capacidade de sobrevivência dos melhores contos de fadas, que continuam encantando crianças das gerações dos computadores, videogames e jogos de RPG, consiste em seu poder de simbolizar e “resolver” os conflitos psíquicos inconscientes que ainda dizem respeito às crianças de hoje. A leitura da pesquisa detalhada e delicada que o casal Corso conduz ao longo deste livro nos faz ver que o atual império das imagens não retirou a força das narrativas orais.
É provável que as técnicas de transmissão oral, que na falta de imagens visuais apelam ao poder imaginativo dos pequenos ouvintes, sejam até hoje capazes de conectar as crianças ao elemento maravilhoso e à multiplicidade de sentidos que caracterizam o mito em todas as culturas e em todas as épocas formando, na expressão dos autores, um “acervo comum de histórias” através do qual a humanidade reconhece a si mesma.
Neste sentido os autores, que também são pais e contadores de histórias, têm a sabedoria de não esgotar pela explicação psicanalítica todos os elementos que compõem a magia dos contos de fadas. Pudera: Diana e Mario Corso não entraram no mundo das histórias infantis por puro interesse intelectual; entraram conduzidos pelas mãos de suas duas filhas. Por isso mesmo, sabem o quanto é ingênua a pretensão de se propor uma única chave de entendimento para as histórias, uma vez que as crianças sabem utilizar os contos à sua maneira e segundo suas necessidades: “como era usado o mito nas sociedades antigas. (...) A criança é garimpeira, sempre procurando pepitas no meio do cascalho numeroso que lhe é servido pela vida”. Além disso, como psicanalistas, compartilham da paixão da psicanálise pela fantasia, resolutiva de conflitos, constitutiva de identidades, criadora de espaços psíquicos tão reais e potentes quanto a dita realidade da vida. Os psicanalistas levam a infância a sério. No caso de Diana e Mário Corso, à paixão pelo universo infantil soma-se o gosto literário pelos contos de fada. Com isso, os autores cumprem a mais importante das cinco condições propostas por Fernando Pessoa para um crítico literário: a simpatia.
Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar. A atitude cauta, irônica, a deslocada – todas elas privam o intérprete da primeira condição para poder interpretar .
Munidos de indiscutível simpatia por seu objeto, na interface entre a psicanálise e a literatura, os autores vêm contribuir com a ousada proposta de preencher um vazio na área da crítica de literatura infantil no Brasil.
Diana e Mario Corso não são tradicionalistas. Reconhecem que, nas últimas décadas, o poder das comunicações no mundo globalizado acelerou um trabalho de transmissão de histórias que levou séculos de tradição oral, no ocidente. A extensa análise apresentada neste livro contempla, desde os tradicionais contos de fadas coletados na Europa pelos irmãos Grimm e por Charles Perrault, até os atuais e cinematográficos Harry Potter, Turma da Mônica e Senhor dos Anéis, encerrando com os heróis dos melhores cartuns contemporâneos: Mafalda, Peanuts e Calvin. Segundo os autores, do ponto de vista do ouvinte infantil, não faz muita diferença se a história é passada ou contemporânea. Os contos que aparentemente não correspondem a questões do mundo atual interessam à criança, sempre aberta a todas as possibilidades da existência e capaz de identificar-se com os personagens mais bizarros e as narrativas mais extravagantes. Como a criança ainda não delimitou as fronteiras entre o existente e o imaginoso, entre o verdadeiro e o verossímil (fronteiras estabelecidas, em parte, pelo recalque das representações inconscientes), todas as possibilidades da linguagem lhe interessam para compor o repertório imaginário de que ela necessita para abordar os enigmas do mundo e do desejo.[..]
Maria Rita Kehl
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