quarta-feira, 27 de outubro de 2010

“O projeto de sermos felizes é profundamente errado, concebido para nos manter na insatisfação, o que é absolutamente necessário na sociedade de consumo. O ganhador é quem teve uma alta qualidade de experiência, seja qual for, que tenha sido intensamente. A felicidade, eu sou contra. Sexo não é felicidade, é alegria.”

“Na hora de bater as botas, diante da pergunta ‘Que mais poderia ter sido minha vida?’, é tocante constatar que, no fundo, gostaríamos que tivesse sido mais do mesmo.”

CONTARDO CALLIGARES

domingo, 24 de outubro de 2010


"Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou seu amor'(Freud). Acho essas frases notáveis porque elas dizem claramente o paradoxo incontornável do amor: mesmo sendo uma condição constitutiva da natureza humana, o amor é sempre a premissa insuperável dos nossos sofrimentos. Quanto mais se ama, mais se sofre"(Nasio)

terça-feira, 19 de outubro de 2010


Ser singular é também ser solitário. É não ter um semelhante para fazer suporte a nossa diferença, a nossa peculiaridade.
No entanto, é esta condição de único que torna possível que nos relacionemos com outras pessoas.

(Ana Dilger)


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O eu é um outro I

A experiência do confronto com o Real pode produzir efeitos diversos. O Real é, por definição, aquilo que a linguagem exclui. O impossível de simbolizar. Para o psiquismo, há três elementos do Real que não se pode evitar: a mãe primordial, o sexo e a morte. Esta última, para nós, é sempre a morte do outro: nada podemos dizer desse encontro ao qual, quando comparecemos, já não somos. Sempre faltamos, como seres falantes, ao encontro marcado com nossa própria morte. No entanto, sua proximidade nos coloca diante dos enigmas do funcionamento do corpo; o mistério dos órgãos silenciosos, do fluxo sangüíneo, do peristaltismo, do entra-e-sai do ar nos pulmões.
Podemos incluir, na série do que a linguagem exclui, o encontro com a crueldade extrema do outro, este mal radical, fragmento de gozo que também nos diz respeito embora permaneça inconcebível e, por isso mesmo – real.
Em psicanálise, chamamos trauma o efeito do Real sobre o psiquismo. Mas nem todo trauma nos condena ao silêncio. Ao contrário: ao redor do ponto negro do qual não é possível dizer nada, produzimos uma torrente de palavras.Os sobreviventes de cataclismos naturais, os egressos de campos de concentração, os que se viram diante da presença do Mal, os que enfrentaram a morte, não conseguem parar de falar nisso. Não cessam de tentar inscrever no campo simbólico os limites de sua experiência. Foram atravessados – como no sexo! – pela presença de um outro, um eu alheio ao eu, um fragmento do duplo que a palavra persegue, mas não capta jamais.
Algo da experiência mística, e da experiência poética, também se traduz assim. “Eu é um outro”, escreveu Rimbaud a seu amigo Paul Demeny:

Car je est un autre. (...) Cela m´est évident: j´assiste à l´eclosion de ma pensée: je la regarde, je l´écoute: je lance um coup d´archet: la symphonie fait son remuement dans lês profondeurs, ou vient d´un bond sur la scène.

O poeta denuncia a estupidez dos que acreditam no significado falso da palavra eu, e ri da crença desses esqueletos que se acreditam autores do que escrevem. Para Rimbaud, muito antes de Freud, a palavra do poeta vem deste outro que desmente a pretensão soberana do eu individual, burguês.
Mas nem sempre o encontro com o outro de fora da linguagem nos transforma em poetas. Freqüentemente, o blábláblá a que nos entregamos, e que pede desesperadamente o testemunho de alguém – seja um amigo generoso, um confessor, um psicanalista – não tem nenhuma qualidade literária.
José Maria Cançado está entre os raros abençoados que se tornam poetas em conseqüência de um trauma. Em 2004, seu coração esteve gravemente enfermo; José Maria foi salvo da morte por um coração alheio. Um outro, literalmente, veio habitar seu corpo que a partir desse momento não pode se dizer eu sem duvidar: mas eu, quem?

No transplante não dá para saber
o que é carbúnculo, o que é diamante.

A poesia, a rigor, não precisa da biografia do poeta para se sustentar. Se a experiência do transplante e o longo período de UTI não tivessem acontecido, este pequeno livro seria, da mesma forma, uma refinada obra da língua e da imaginação. Mas o autor quis revelar, na nota final, o episódio que deu à luz o poeta. O que torna sua poesia ainda mais surpreendente. Às vezes, são necessários muitos anos para que uma experiência traumática se transforme em literatura. É o que escreve Jorge Semprúm no prefácio ao seu A grande viagem, explicando por quê, só 16 anos depois de ter passado por Auschwitz, foi capaz de escrever sobre o que viveu ali.
O que surpreende é que José Maria tenha começado a escrever ali mesmo, na Unidade de Terapia Intensiva do SUS, enquanto se recuperava da cirurgia e esperava que o novo habitante se adaptasse à nova casa.

Valente, na radiografia
é possível vê-lo alojado desde ontem
ocupando sua banca
como um verdureiro recém instalado
vindo de outros dias e noites
e outras festas de São João.

É provável que a pressa da poesia fosse resposta à urgência da nova tarefa. A palavra do poeta revisita os mistérios do corpo, já não mais arquivado “sob a turquês da morte” e sim ressignificado pela presença do novo passageiro. Ou será o contrário, o coração novato o próprio motoneiro a conduzir o eu-corpo através da multidão que o habita?
Maria Rita Kehl

sábado, 16 de outubro de 2010

Felicidade x Medo



O medo da felicidade é uma espécie de fobia (medo indevido). Felicidade não mata! Os que ousam enfrentar o medo "vivem felizes para sempre"

Nada provoca mais felicidade -- e mais medo -- do que o encontro amoroso de qualidade. É preciso redobrar a cautela contra a destrutividade.


A destrutividade se manifesta criando problemas para a consumação da aliança. Se existem, são amplificados. Se não existem, são inventados.

(Flavio Gikovate)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010


"O que faz durar a possibilidade de uma pessoa pensar ser feliz? Provavelmente a sua capacidade de manter viva a responsabilidade por sua singularidade e a invenção de soluções que consiga sustentar no mundo". (Jorge Forbes)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Este é um fragmento do texto que rendeu a demissão de Maria Rita Kehl do jornal O Estado de São Paulo.
Chama-se DOIS PESOS.

"A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria?"

Maria Rita Kehl - O Estado de S.Paulo

terça-feira, 5 de outubro de 2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A dor

"A dor é uma reação afetiva a uma perda. Trata-se de uma perda de uma unidade, seja na dor física, em que se perdem a harmonia e a integração equilibrada das diferentes partes do corpo, ou na dor psíquica, em que a dor diz respeito a perda de um ente querido. A dor é uma reação afetiva a uma perda brutal e violenta de uma parte que prezamos e da qual nossa unidade depende. Para falar de dor, é preciso que haja uma perda, a perda violenta e imprevista de uma unidade. Se a perda não é brutal, não falo de dor, mas de sofrimento. Para mim, a dor está ligada ao tempo, à imediatez, ao imprevisto. [...]"
NASIO, J. D. A dor física.